Ainda segundo essas autoras, o contexto familiar tem uma relação direta
com a época em que se inicia a atividade sexual. As adolescentes que
iniciam vida sexual precocemente ou engravidam nesse período, geralmente
vêm de famílias cujas mães se assemelharam à essa biografia, ou seja,
também iniciaram vida sexual precoce ou engravidaram durante a
adolescência.
-
O comportamento sexual do adolescente é classificado de acordo com o
grau de seriedade. Vai desde o "ficar" até o namorar.
"Ficar" é um tipo de relacionamento íntimo sem compromisso de
fidelidade entre os parceiros. Num ambiente social (festa, barzinho,
boate) dois jovens sentem-se atraídos, dançam conversam e resolvem
ficar juntos aquela noite. Nessa relação podem acontecer beijos,
abraços, colar de corpos e até uma relação sexual completa, desde que
ambos queiram. Esse relacionamento é inteiramente descompromissado,
sendo possível que esses jovens se encontrem novamente e não aconteça
mais nada entre eles de novo (veja
Hábito de Ficar
Com....).
-
Em bom número de vezes o casal começa "ficando" e evoluem
para o namoro. No namoro a fidelidade é considerada muito importante. O
namoro estabelece uma relação verdadeira com um parceiro sexual. Na
puberdade, o interesse sexual coincide com a vontade de namorar e,
segundo pesquisas, esse despertar sexual tem surgido cada vez mais cedo
entre os adolescentes (veja
Adolescência
e Puberdade). O adolescente,
impulsionado pela força de seus instintos, juntamente com a necessidade
de provar a si mesmo sua virilidade e sua independente determinação em
conquistar outra pessoa do sexo oposto, contraria com facilidade as
normas tradicionais da sociedade e os aconselhamentos familiares e
começa, avidamente, o exercício de sua sexualidade.
-
Há uma corrente bizarra de pensamento que pretende associar progresso,
modernidade, permissividade e liberalidade, tudo isso em meio à um caldo
daquilo que seria desejável e melhor para o ser humano. Quem porventura
ousar se contrapor à esse esquema, corre o risco de ser rotulado de
retrógrado. As pessoas de bom senso silenciam diante da ameaça de serem
tidas por preconceituosas, interessando à cultua modernóide desenvolver
um cegueira cultural contra um preconceito ainda maior e que não se
percebe; aquele que aponta contra pessoas cautelosas e sensatas, os
chamados "conservadores", uma espécie acanhada de atravancador
do progresso.
-
As atitudes das pessoas são, inegavelmente, estimuladas e condicionadas
tanto pela família quanto pela sociedade. E a sociedade tem passado por
profundas mudanças em sua estrutura, inclusive aceitando "goela
abaixo" a sexualidade na adolescência e, conseqüentemente, também
a gravidez na adolescência. Portanto, à medida em que os tabus,
inibições, tradições e comportamentos conservadores estão
diminuindo, a atividade sexual e a gravidez na infância e juventude vai
aumentando.
-
-
A adolescência implica num período de mudanças físicas e emocionais
considerado, por alguns, um momento de conflitivo ou de crise. Não
podemos descrever a adolescência como simples adaptação às
transformações corporais, mas como um importante período no ciclo
existencial da pessoa, uma tomada de posição social, familiar, sexual e
entre o grupo.
-
A puberdade, que marca o início da vida reprodutiva da mulher, é
caracterizada pelas mudanças fisiológicas corporais e psicológicas da
adolescência. Uma gravidez na adolescência provocaria mudanças maiores
ainda na transformação que já vinha ocorrendo de forma natural. Neste
caso, muitas vezes a adolescente precisaria de um importante apoio do
mundo adulto para saber lidar com esta nova situação.
-
Porque a adolescente fica grávida é uma questão muito incômoda aos
pesquisadores. São boas as palavras de Vitalle & Amâncio (idem),
segundo as quais a utilização de métodos anticoncepcionais não ocorre
de modo eficaz na adolescência, inclusive devido a fatores psicológicos
inerentes ao período da adolescência. A adolescente nega a
possibilidade de engravidar e essa negação é tanto maior quanto menor
a faixa etária.
-
A atividade sexual da adolescente é, geralmente, eventual, justificando
para muitas a falta de uso rotineiro de anticoncepcionais. A grande
maioria delas também não assume diante da família a sua sexualidade,
nem a posse do anticoncepcional, que denuncia uma vida sexual ativa.
Assim sendo, além da falta ou má utilização de meios
anticoncepcionais, a gravidez e o risco de engravidar na adolescente
podem estar associados a uma menor auto-estima, à um funcionamento
familiar inadequado, à grande permissividade falsamente apregoada como
desejável à uma família moderna ou à baixa qualidade de seu tempo
livre. De qualquer forma, o que parece ser quase consensual entre os
pesquisadores, é que as facilidades de acesso à informação sexual
não tem garantido maior proteção contra doenças sexualmente
transmissíveis e nem contra a gravidez nas adolescentes.
-
Uma vez constatada a gravidez, se a família da adolescente for capaz de
acolher o novo fato com harmonia, respeito e colaboração, esta gravidez
tem maior probabilidade de ser levada a termo normalmente e sem grandes
transtornos. Porém, havendo rejeição, conflitos traumáticos de
relacionamento, punições atrozes e incompreensão, a adolescente
poderá sentir-se profundamente só nesta experiência difícil e
desconhecida, poderá correr o risco de procurar abortar, sair de casa,
submeter-se a toda sorte de atitudes que, acredita, “resolverão” seu
problema.O bem-estar afetivo da adolescente grávida é muito importante
para si própria, para o desenvolvimento da gravidez e para a vida do
bebê. A adolescente grávida, principalmente a solteira e não
planejada, precisa encarar sua gravidez a partir do valor da vida que
nela habita, precisa sentir segurança e apoio necessários para seu
conforto afetivo, precisa dispor bastante de um diálogo esclarecedor e,
finalmente, da presença constante de amor e solidariedade que a ajude
nos altos e baixos emocionais, comuns na gravidez, até o nascimento de
seu bebê.
-
Mesmo diante de casamentos ocorridos na adolescência de forma planejada
e com gravidez também planejada, por mais preparado que esteja o casal,
a adolescente não deixará de enfrentar a somatória das mudanças
físicas e psíquicas decorrentes da gravidez e da adolescência.
-
A gravidez na adolescência é, portanto, um problema que deve ser levado
muito a sério e não deve ser subestimado, assim como deve ser levado a
sério o próprio processo do parto. Este pode ser dificultado por
problemas anatômicos e comuns da adolescente, tais como o tamanho e
conformidade da pelve, a elasticidade dos músculos uterinos, os temores,
desinformação e fantasias da mãe ex-criança, além dos
importantíssimos elementos psicológicos e afetivos possivelmente
presentes.
-
Para se ter idéia das intercorrências emocionais na gravidez de
adolescentes, em trabalho apresentado no III Fórum de Psiquiatria do
Interior Paulista, em 2000,
Gislaine
Freitas e Neury Botega mostraram
que, do total de adolescentes grávidas estudadas na Secretaria Municipal
de Saúde de Piracicaba, foram encontrados: casos de Ansiedade em 21%
delas, assim como 23% de Depressão. Ansiedade junto com Depressão
esteve presente em 10%.
-
Importantíssima foi a incidência observada para a ocorrência de
ideação suicida, presente 16% dos casos, mas, não encontraram
diferenças nas prevalências de depressão, ansiedade e ideação
suicida entre os diversos trimestres da gravidez. Tentativa de suicídio
ocorreu em 13% e a severidade da ideação suicida associação
significativa com a severidade depressão.
-
Procurando conhecer algumas outras características da população de
adolescentes grávidas como estado civil, escolaridade, ocupação,
menarca, atividades sexuais, tipo de parto, número de gestações e
realização de pré-natal,
Maria
Joana Siqueira refere alguns números
interessantes.
Gisleine Vaz Scavacini de Freitas e Neury José Botega
(Unicamp) têm um estudo sobre ideação de suicídio em adolescentes
grávidas. Estudaram 120 adolescentes grávidas (40 de cada trimestre
gestacional), com idades variando entre 14 e 18 anos, atendidas em
serviço de pré-natal da Secretaria Municipal de Saúde de Piracicaba.
Do total dos sujeitos, foram encontrados: casos de
ansiedade em 25 (21 %); casos de depressão em 28 (23%). Desses, 12
(10%) tinham ansiedade e depressão. Ideação suicida ocorreu em 19
(16%) das pacientes. Não foram encontradas diferenças nas
prevalências de depressão, ansiedade e ideação suicida nos diversos
trimestres da gravidez.
As tentativas de suicídio anteriores ocorram em 13%
das adolescentes grávidas. A severidade dessas tentativas de suicídio
teve associação significativa com o grau da depressão, bem como com o
estado civil da pacientes (solteira sem namorado).
0 comentários:
Postar um comentário